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sexta-feira, 24 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A luta continua

"Então o primeiro do norte avançou para o trigo com a foice, e o primeiro do sul deitou-lhe a mão ao braço, empurraram-se sem agilidade, rijos, rudes, brutos, fome contra fome, miséria sobre miséria, pão que tanto nos custas. Veio a guarda e separou a briga, bateu para um lado só, empurrou à sabrada os do sul, amalhou-os como animais. Diz o sargento, Quer que os leve todos presos. Diz o feitor, Não vale a pena, são uns desgraçados, segure-os aí um pedaço, até desanimarem. Diz o sargento, Mas há ali um ratinho com a cabeça rachada, houve agressão, a lei é a lei. "

Retirado do livro Levantado do chão, José Saramago.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Observação infame

" ...No século XX, as correntes estéticas que se seguiram ao Impressionismo levaram ao extremo a convicção de que o objeto artístico obedece a princípios estruturais que lhe dão o estatuto de ser construído, e não de ser dado, "natural" . Matisse, abordado por uma dama a propósito de um quadro seu com um comentário "Mas eu nunca vi uma mulher como essa!", replicou, cortante: "Madame, isto não é uma mulher, é uma tela"."

Retirado do livro Reflexões sobre a arte de Alfredo Bosi.

Mal educado é quem observa sem saber o que diz, não quem responde!

sábado, 14 de março de 2009

Uma escritora

Tenho uma coisa a confessar: sou um pouco preconceituosa com autores novos ou pouco conhecidos (muito famosos como o Dan Brown ou Paulo Coelho também dispenso - mas por conceito formado).

Entretanto surpreendi-me muito com essa escritora, pela qual me apaixonei ao ler o conto "O diário da Medeia" que abre o livro "O sudário"
(que tem outros contos muito bons como "O fruto do vosso ventre" por exemplo).

Contudo, surpreendi-me ainda mais com a leitura de seu primeiro romance, um enigmático noir extremamente profundo, com reflexões sobre arte e vida sem pedantismos pseudo-intelectuais. Enfim sou uma fonte pouco confiável uma vez que sou fã..rs

"Eu ficava deliciado quando percebia esses pequenos traços fúteis que emolduravam o abismo de sua feminilidade. As meias deslizavam suavemente pelas suas pernas, depois as calcinhas. Lentidão e volúpia. Sem ensaio, sem olhar para mim ou me olhando furtivamente. Uma borboleta se libertando do casulo. Uma mulher, em um quadro do Degas, se despindo para o banho, observada ilicitamente pelo buraco da fechadura.

Bastava-se a si mesma."

Esse trecho é do romance "Fuga em espelhos" , poderia destacar muitos outros mas prefiro deixar a curiosidade fazê-los procurar por Guiomar de Grammont.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ás seis da tarde

A memória é algo muito estranho. Há algum tempo lembrei-me desse texto, é óbvio que não o sabia de cor, mas lembrei-me da temática que era pertinente a conversa e comentei com o André que se interessou pela poesia. Porém, não me lembrava onde tinha lido e nem quem era o autor. Estudando, encontrei o famigerado texto que estava numa prova que eu havia feito há alguns anos (Fuvest 05).


Às seis da tarde

Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Marina Colasanti – Gargantas abertas


É interessante como uma coisa pode permanecer na memória por tanto tempo, mesmo que não tenha sido algo extraordinário. Uma cena, uma música, uma idéia(?) tudo isso pode ficar eternamente no subconsciente. Logo, tomem cuidado com as coisas que leêm(?) por aí, elas podem ficar morando na sua cabeça.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra toda fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...



Retirado de: Poesia Completa de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa. - São Paulo: Companhia das Letras. 2005

Esse é meu poema favorito de "O guardador de rebanhos" de Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O blog do português

Ele é um grande escritor, sem dúvidas um dos meus favoritos. Anda a escrever num blog, lá coloca suas opiniões sobre os mais diversos assuntos e pontos de vista que considero geniais. Lendo-o achei esses dois pequenos textos muito interessantes! Com vocês, José Saramago.


Dogmas


Os dogmas mais nocivos nem sequer são os que como tal foram expressamente enunciados, como é o caso dos dogmas religiosos, porque estes apelam à fé, e a fé não sabe nem pode discutir-se a si mesma. O mal é que se tenha transformado em dogma laico o que, por sua própria natureza, nunca aspirou a tal. Marx, por exemplo, não dogmatizou, mas logo não faltaram pseudo-marxistas para converter O Capital em outra bíblia, trocando o pensamento activo pela glosa estéril ou pela interpretação viciosa. Viu-se o que aconteceu. Um dia, se formos capazes de desfazer-nos dos antigos e férreos moldes, da pele velha que não nos deixou crescer, voltaremos a encontrar-nos com Marx: talvez uma “releitura marxista” do marxismo nos ajude a abrir caminhos mais generosos ao acto de pensar. Que terá que começar por procurar resposta à pergunta fundamental: “Por que penso como penso?” Com outras palavras: “Que é a ideologia?” Parecem perguntas de pouca monta e não creio que haja outras mais importantes…



Palavras

Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cântico negro

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Conheci esse texto a pouco tempo, mas gostei muito!

domingo, 2 de novembro de 2008

Os Três mal-amados

Já conheci muitas pessoas inteligentes e talentosas, mas nunca conheci pessoalmente um gênio. Vi muitos bons artistas também, porém, existem outros que extrapolam essa fronteira e encontram a essência do ser e do belo, eles são os tão falados gênios (morro de ódio, admiração e inveja dessa gente). São pessoas que vêem além das outras e sabem mostrar isso de uma forma única e seja por meio de pintura, escultura, cinema, teatro ou literatura são capazes de emocionar e fazer pensar qualquer um que esteja disposto dar-lhes ouvidos e olhos.


E gostaria de colocar aqui algumas obras que, julgo eu, são geniais. A primeira delas é a fala do João de “Os três mal-amados” do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto.



João:


Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui ao meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?


Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul quem envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.


Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?


Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?


Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).


Teresa está aqui, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?


O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda este gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...


Talvez Teresa... Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?


Posso esperar que esse oceano seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?


O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É impossível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes no mesmo mar?


Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.


Retirado de: Serial e antes/ João Cabral de Melo Neto. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1997


Considero esta a mais bonita das falas dos três mal-amados (embora todos prefiram a fala de Joaquim). Espero que um dia o João Cabral seja reconhecido como grande poeta em língua portuguesa assim como Camões ou Fernando Pessoa.