terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cântico negro

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Conheci esse texto a pouco tempo, mas gostei muito!

Ainda sobre a individualidade

Sábado à tarde, o filho sai do quarto para tomar água e o pai lhe fala:


Você não pode ficar tanto tempo dentro de casa; tem de ir para a rua, ver o movimento, as pessoas, andar por aí, conversar com outras pessoas.


Por quê?


Porque se ficar sempre com as mesmas pessoas, será considerado um chato que não conversa, antipático e que se acha melhor que os outros.


Não gosto de conversar com qualquer pessoa, não me considero melhor, apenas diferente. Não preciso que todos gostem de mim, só preciso que as pessoas de que gosto saibam disso e que se quiserem gostem de mim também. Não me importo com o que pensam a meu respeito.


Não se importa que as pessoas não gostem de você?


Não. Só me importo com as pessoas de que gosto.


Claro que se importa! Eu sei que se importa, ninguém é feliz sabendo que não é querido por todos!


Eu não ligo. Alias quero que as pessoas de que não gosto saibam disso, para que não gostem de mim também, assim nunca preciso falar com elas.


Você é muito teimoso!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sobre a individualidade

Ante-sala do consultório, senhoras conversam:


Meus filhos teêm-me dado um trabalho! Um vive perdendo o emprego, depois que terminou o colégio não quis mais saber de estudar, o pai queria tanto que ele fosse engenheiro. Ele acha que vai poder morar conosco até os trinta anos. O outro nunca pára em casa, quando está fica o tempo todo trancado no quarto estudando, não conversa, nunca me conta nada é como se ele nem estivesse lá.


E o meu então, não quer assumir o meu neto. É verdade que ele sempre manda o dinheiro da pensão, mas tem que gostar da criança, levá-lo em casa para eu ver como ele está. Também, a moça é uma paspalha não conseguiu fazê-lo casar, quando engravidei casei antes mesmo da barriga começar a aparecer.


Eu depois que casei demorei cinco anos para ter a minha, ela chorou até o sexto mês sem parar. Agora que está na escola, não gosta de estudar, fica cantando aquelas músicas horrorosas, vive comendo doces, está ficando cada vez mais gorda. Quando chegar a adolescência não sei como vai ser.


Entra uma moça com ar jovial, elas a escutam conversar com a recepcionista:


Seus exames pré-operatórios chegaram, poderá marcar para qualquer dia dessa semana.


Que ótimo, vou aguardar. Obrigada.


A senhora mais velha, e por isso com maior permissão social, senta-se ao lado da moça que acabará de chegar e lhe pergunta:


Puxa, uma moça tão jovem. Vai operar por que?


Obrigada pelo tão jovem. Agora que já passei dos trinta vou fazer esterilização.


E quantos filhos têm?


Nenhum. E nem eu ou meu marido desejamos, somos muito felizes só nós. Caso um dia mudemos de idéia preferimos adotar uma criança.


Que absurdo! Eu sei que você quer ter, converse com seu marido. Nenhum casal é feliz sem filhos, eles são a materialização do amor do casal. Você nunca será feliz se não der um ao seu marido!


Eu já sou feliz, não vejo motivos para colocar mais uma criança nesse mundo. Acho um projeto muito egoísta. Vou ter um filho para moldá-lo a minha forma? Projetar meus sonhos frustrados sobre ele? Não vou além de detonar meu corpo esperar que ele saía de casa para ter paz novamente.


A senhora levanta-se vermelha e volta para o grupo de onde saiu. A moça ri discretamente.


Vocês viram isso! Onde já se viu ser casada e não querer ter filhos, egoísmo é não querer gerar uma criança. Eu jamais seria feliz sem os meus meninos, eles são a melhor coisa que me aconteceu.


As outras concordam, porém pensam se seria melhor não terem tido os filhos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ode ao dia sem graça

Sinto a claustrofobia

própria de uma fera enjaulada

As paredes me sufocam

lanço-me sobre elas,

tento desesperadamente derrubá-las


Desejo-me livre

quero-me livre


Porém essa gaiola

está prestes a desabar


E não mais estarei presa

entre o tédio

mas soterrada por ele

domingo, 2 de novembro de 2008

Os Três mal-amados

Já conheci muitas pessoas inteligentes e talentosas, mas nunca conheci pessoalmente um gênio. Vi muitos bons artistas também, porém, existem outros que extrapolam essa fronteira e encontram a essência do ser e do belo, eles são os tão falados gênios (morro de ódio, admiração e inveja dessa gente). São pessoas que vêem além das outras e sabem mostrar isso de uma forma única e seja por meio de pintura, escultura, cinema, teatro ou literatura são capazes de emocionar e fazer pensar qualquer um que esteja disposto dar-lhes ouvidos e olhos.


E gostaria de colocar aqui algumas obras que, julgo eu, são geniais. A primeira delas é a fala do João de “Os três mal-amados” do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto.



João:


Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui ao meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?


Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul quem envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.


Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?


Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?


Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).


Teresa está aqui, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?


O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda este gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...


Talvez Teresa... Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?


Posso esperar que esse oceano seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?


O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É impossível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes no mesmo mar?


Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.


Retirado de: Serial e antes/ João Cabral de Melo Neto. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1997


Considero esta a mais bonita das falas dos três mal-amados (embora todos prefiram a fala de Joaquim). Espero que um dia o João Cabral seja reconhecido como grande poeta em língua portuguesa assim como Camões ou Fernando Pessoa.

sábado, 1 de novembro de 2008

A cegueira que faz enxergar...


Há cerca de dois anos li o romance “Ensaio sobre a cegueira” do português José Saramago, fiquei pensativa por semanas, pensei em como a civilização que conhecemos é frágil e em como o homem é extremamente mesquinho. Tive pesadelos com isso e fiquei muito ansiosa para ver como tudo aquilo seria transportado para o cinema.


Pensei em como seria se realmente a humanidade fosse acometida por uma epidemia de cegueira branca, e o que imaginei não é muito diferente do que vi ontem no cinema ao assistir o filme homônimo do diretor Fernando Meirelles. Embora nem todas as personagens e situações que estão no livro estejam no filme (teríamos um série se isso fosse feito), ele é sintético e expressivo pois consegue fazer com que vejamos o que o ser humano tem o de pior do instinto e da civilização.


É aterrorizante nos vermos nos cegos, pensarmos que se estivéssemos na mesma situação tomaríamos as mesmas atitudes. Como por exemplo o momento em que a protagonista rechaça um grupo tão desamparado quanto o seu, ou quando vemos as mulheres sendo estupradas/prostituídas em troca de comida. É terrível pensar que isso acontece todos os dias em algum canto do mundo, e que fechamos os olhos porque não ver é mais confortável.


O filme nos insere nesse mundo por mostrar como seria o homem sem apenas um dos cinco sentidos (e o mais valorizado na pós-modernidade). A iluminação que deixa o expectador com a sensação de que ele pode a qualquer momento ser acometido pelo mal da cegueira, uma trilha sonora minimalista com faixas instrumentais e uma bela fotografia. O longa é tão perturbador quanto o livro, pois nos mostra o tamanho de nossa cegueira


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (BLINDNESS)
Brasil/Japão/Canadá, 2008 - 118 min
Direção: Fernando Meireles
Roteiro: Don Mckellar, baseado no livro de José Saramago
Fotografia: César Charlone, ABC
Montagem: Daniel Rezende
Música: Marco Antonio Guimarães / UAKTI
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshini Kimura, Don Mc
kellar, Danny Glover, Gael García Bernal