quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Genialidade?

Assisti ao filme "Camille Claudel", emprestado pelo meu querido amigo Pitaqueiro. O filme ficou bom, têm cortes, fotografia e figurinos muito bonitos o que lhe rendeu muitos prêmios Cesar e o Urso de Ouro a Isabelle Adjani. O desempenho de Isabelle é impecável, embora ache que seu trabalho fica um pouco arranhado pelo trabalho de maquiagem ineficaz, pois vemos Camille no fim da película com o mesmo rosto angelical dos primeiros minutos, isso desacredita o expectador que durante as quase três horas de projeção passaram-se aproximadamente trinta anos.

Fazendo um apanhado da trama:

Camille demonstrava se tendência a escultura desde tenra idade, seu pai um homem amoroso e culto faz tudo o que pode para alavancar a carreira da filha como escultora. Seu talento foi aperfeiçoado ao longo de sua vida anterior ao sanatório, especialmente durantes os quinze anos em que foi aprendiz e amante de Rodin.

Auguste hesitou muito em abandonar a companheira de longa data por sua jovem e belíssima inspiração, ele não o faz, então Camille o deixa. Entretanto, a jovem escultora vive a sombra da obra de Rodin e a solidão, a falta de reconhecimento e recursos acaba por fazê-la enlouquecer por um processo de paranóia. Ela e seu irmão, o poeta francês Paul Claudel - que eu não sabia, mas é um grande nome da poesia francesa do século XX- eram muito próximos até o romance da jovem com seu mestre e a conversão dele ao catolicismo, sendo assim ele não compreende as fontes da insanidade da irmã e acaba por colocá-la em um asilo durante as ultimas três décadas dela.


O ponto que quero trabalhar não é a relação professor/aprendiz e nem cair no clichê feminista de dizer que o trabalho e talento de Camille foram usurpados por Rodin por ser ele homem, mais velho e famoso e ela mulher, uma vez que isso não procede. Quero trabalhar a questão porque diabos os artistas sofrem tanto, porque a genialidade acaba com o ser?

Já li vários livros que contam a biografia de gênios (em geral artistas plásticos) é quase regra geral: o sofrimento. Derramaram-se sobre seu trabalho e ao fim havia apenas cacos do que eram anteriormente e obras primas como “As conversadeiras” de Camille ou “As Duas Fridas” de Frida Khalo ou os tantos girassóis e “Céu noturno” de Van Gogh. Haverá quem diga que isso é uma manifestação da modernidade, mas não é de todo verdade, pois grandes nomes como Goya e Caravaggio também sofreram essa dilaceração do ser.

Conversando uma vez com o André – o senhor dos Romances Urbanos – acabamos por chegar a um ponto desse enigma, o gênio tem uma percepção muito maior do que a das ditas pessoas comuns, ele sente mais e vê além; isso o faz um estranho em meio aos seus, ele não se adapta e sofre. Entretanto existem entre os comuns os sensíveis, mas não é isso que os torna artistas, como vemos no filme “Interiores” de Woody Allen, na verdade é só mais um efeito tostines, “são gênios porque sofrem, ou sofrem porque são gênios”.

Concluindo, mesmo eu morrendo de ódio e inveja desse povo ainda bem que não sou um gênio, pois como sempre é o egoísmo que nos move, prefiro ser mais leve e com isso mais feliz a sentir e sofrer a dor do artiste e deixar ao mundo uma obra-prima.

Um comentário:

rochaandre disse...

Uma vida é sempre maior que uma obra, mas confesso que vez em quando bate uma vontade de fazer algo grande e deixar algo que me renderia reconhecimento...pretensão? arrogância? sei não...só sei que não sou gênio e se conseguir fazer algo pelos meus amigos já ficarei feliz, rs...beijo!